De saco cheio mesmo, tipo Papai Noel na semana do Natal.
Trabalhei a maior parte da carreira atendendo governos. Falando com Governadores, Senadores, Deputados, Prefeitos (Deus, como tem prefeito nesse país).
Falei com poucos vereadores (e olha que isso tem mais que prefeito.) E ainda menos com presidentes da República. Acho que só um.
Aprendi cedo a não escolher lado.
O que está de plantão hoje é a oposição ferrenha de amanhã. E tudo bem.
Faz parte do jogo democrático.
Sempre tem um gritando: CRIME!
E sempre tem gente dando de ombros.
Assim, sempre escuto todo mundo — samba, heavy metal, passando por funk e qualquer outra coisa que aparecer no fone de ouvido.
Meu posicionamento político é tão eclético como minha playlist do espotifai.
Mas, deixa ver se eu entendi o que aconteceu no domingo 23/08.
Um candidato a presidente pediu dinheiro a um banqueiro. O banqueiro, descobriram depois, era bandido. O dinheiro era pra fazer um filme, sobre o pai do candidato. O filme, ao que tudo indica, foi superfaturado.
Metade do país gritou: crime. Metade do país, deu de ombros: normal.
Do outro lado, o presidente.
O chefe de gabinete dele foi pego recebendo grana de uma lobista. A lobista, dizem, andava enredada com a máfia que roubava a previdência. E essa mesma lobista — vejam vocês — andava enredada (aqui no sentido de deitar na rede) também com o filho do presidente.
Metade do país grita: crime. Metade do país, deu de ombros: normal.
(Com essa bagunça de pais e filhos, eu pensei em ir pra Pasárgada bem aí, no meio da história.)
Uma das maiores redes de telecomunicações do país marcou o debate do ano.
O país inteiro ansioso: será que os dois vão conseguir se explicar?
Será que vai ter gente mudando de ideia ao ver a resposta do outro lado?
Expectativa para o debate… Só que os dois líderes das pesquisas combinaram a mesma resposta.
Nenhum apareceu.
E aí, nada. Silêncio.
Duas metades entorpecidas de tanto engolir absurdo do lado que escolheram.
Metade do país deu de ombros. A outra metade, também.
Os poucos que queriam gritar CRIME foram sufocados pelos ombros dos fã-clubes.
Foi aí que entendi: ninguém quer mais convencer o outro lado. Quer só confortar o próprio.
Cada líder faz monólogo pros seus.
Cada um aposta que, no poder, a própria sujeira não vai pegar.
Vejo isso em muita empresa que já visitei: diretoria que só fala com quem já concorda — e chama isso de “alinhamento”.
Discordar e debater é essencial para o crescimento da pessoa, da empresa e do país.
Complicado.
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá ninguém pergunta de que lado você é.
Lá sou amigo do Rei.
Parafraseando o Barão de Itararé, no Brasil, corrupção é todo bom negócio para o qual você não foi convidado.
PS 1: “Vou-me embora pra Pasárgada” é um poema de Manuel Bandeira, de 1930. Ele escreveu depois de saber que tinha tuberculose e não teria vida longa. Pasárgada era o nome de uma cidade persa antiga, mas no poema virou um lugar inventado — onde ele podia ser tudo que a vida real não deixava: livre, sem doença, sem regra, amigo do Rei. Virou a expressão mais usada no Brasil pra “cansei de brigar com a realidade, vou criar meu próprio lugar onde as coisas funcionam do meu jeito.”
PS 2: Aparício Torelly, o Barão de Itararé, foi jornalista e humorista carioca do início do século XX — o título de barão era piada dele mesmo, sem terra nem coroa nenhuma. Ficou famoso por frases curtas que resumiam a política brasileira melhor que artigo nenhum. A frase que usei brinca com isso: chamamos de “corrupção” o negócio de que não participamos — quem está dentro do esquema simplesmente chama de negócio.
Publicado originalmente na newsletter Notas do Executivo de Segunda, no LinkedIn, em 24 de agosto de 2026.
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