Reunião para “aumentar a diversidade” na empresa: 8 homens brancos, héteros (juram), cis (autodeclarados, óbvio), de meia-idade com ternos e gravatas alinhados, todos têm salários maiores que 99% da população — decidindo o futuro da inclusão. E para completar a trupe uma mulher. Negra, bissexual, periférica, PCD e que ganha menos. Sozinha, cobrindo o formulário inteiro de cotas para que ninguém mais precise se incomodar.
O cargo de diretor de RH virou “Diretor de Pessoas” porque “recurso” soa desumano — ele ouviu isso num curso de 40 minutos no LinkedIn Learning. A equipe dele lidera o ranking de afastamento por burnout da empresa inteira. Ele está aterrorizado com a NR-1, mas não o suficiente pra desligar o Slack depois das 22h.
O diretor comercial reza todo dia pra que o cliente continue ignorante. Não por fidelização, ele tem medo de que se ele descobrir o que existe no mercado há dois anos, 30% da receita recorrente vai junto com ele.
O diretor de produto subiu no palco do evento semestral e chamou de “inovação disruptiva” uma feature que o concorrente lançou em 2019. A plateia aplaudiu. Ninguém teve coragem — ou tempo de LinkedIn — pra checar.
Comitê de ESG se reúne uma vez por trimestre, sempre num hotel a 50 minutos de avião, “porque lá o ambiente inspira criatividade”. Emitiram mais carbono indo discutir a redução de carbono do que a empresa emite num mês. O relatório de sustentabilidade: 62 páginas, impresso, porque “PDF ninguém lê”. PS.: Mais da metade do comitê de ESG forma o comitê de diversidade. A mulher não faz parte.
“Meritocracia”: a palavra favorita do comitê de promoções — formado inteiramente por gestores votando nos próprios indicados. Não existe critério escrito. Existe um print de planilha do Excel, salvo uma vez, nunca mais aberto.
Uma semana antes do balanço, o diretor financeiro tranca a porta com um estatístico e some. Ninguém pergunta o que acontece lá dentro. Todo mundo sabe: os números são torturados até confessarem exatamente o que a diretoria já tinha decidido divulgar — e a auditoria já sabe a resposta antes de perguntar.
Essa mesma auditoria aprovou os últimos 10 balanços sem pestanejar. Mas quando a conduta do CEO vira manchete de jornal nacional, de repente “não é escopo do trabalho” analisar as contas. A independência tem limite: até a primeira ligação da assessoria de imprensa.
Publicado originalmente na newsletter Notas do Executivo de Segunda, no LinkedIn, em 31 de agosto de 2026.
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