Diagnóstico impecável. Velório na sexta

No Brasil, desenvolvemos um talento raro: somos cirurgiões brilhantes em duas situações específicas.

Quando o paciente já está saudável — celebramos, estudamos o caso, colocamos num livro. Quando o paciente já morreu — fazemos a autópsia, identificamos cada erro, escrevemos artigos.

O problema é o meio do caminho. Curar o doente é outra história.

O mercado é cheio de especialistas no óbvio.

A Kodak foi destruída pelo digital. Todo mundo sabe. Mas em 1996, quando a empresa ainda dominava 80% do mercado fotográfico mundial e já tinha a tecnologia da câmera digital em mãos, quem estava na sala apontando o caminho certo? Poucos. E os que apontavam, foram ignorados.

A Blockbuster recusou comprar a Netflix por US$ 50 milhões em 2000. Hoje isso virou piada de PowerPoint. Mas e as dezenas de reuniões que aconteceram antes dessa decisão? As análises, os comitês, os pareceres? Ninguém faltou. Faltou coragem de curar o que estava adoecendo.

No Brasil, o caso Americanas é um manual do que não fazer — e todo analista do mercado financeiro hoje explica com precisão cirúrgica onde estava a fraude. Mas durante anos, os números estranhos estavam lá. O doente estava na maca. O diagnóstico era possível. A intervenção, não aconteceu.

Por que é tão difícil agir no meio da crise?

Porque diagnosticar o saudável é confortável — você celebra junto. Porque fazer a autópsia do falecido é seguro — não tem mais nada a perder.

Mas curar o doente exige três coisas que a maioria evita:

1. Clareza sem conforto. Dizer o que está errado antes de todo mundo concordar que está errado.

2. Decisão sob incerteza. Agir sem ter todos os dados — porque quando todos os dados chegarem, o paciente já foi.

3. Responsabilidade real. Não só apontar o problema, mas assumir o risco de resolver.

O que isso tem a ver com você?

Pensa na sua empresa, no seu time, na sua carreira.

De quantas reuniões você já participou onde todo mundo identificou o problema com perfeição — e saiu sem nenhum plano concreto de solução?

Quantas vezes você viu um projeto morrer aos poucos, com diagnósticos semanais e zero intervenção?

O mercado não precisa de mais analistas do passado. Precisa de executivos que saibam agir no presente imperfeito — quando o quadro ainda não está claro, quando o risco ainda é real, quando curar ainda é possível.

A pergunta da semana:

Tem algum “doente” na sua operação que todo mundo já sabe que está mal — mas ninguém está tratando de verdade?

Se sim, essa semana pode ser a hora.


Publicado originalmente na newsletter Notas do Executivo de Segunda, no LinkedIn, em 26 de maio de 2026.

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