Em 2013 eu era o candidato mais qualificado para uma vaga de Gerente Regional na Caixa.
Tô falando sério! Não fui eu quem disse isso. Foi o processo. Resultado técnico mais alto, histórico mais forte, entrevistas afiadas e feedback positivo. Cheguei na etapa final sabendo que a vaga era minha.
Não foi.
Levou outro nome. Uma candidata com currículo mais fraco no papel, mas que, segundo o feedback que recebi depois, “demonstrou mais vontade”.
Fiquei puto durante meses com essa frase. Vontade não é currículo. Vontade não aparece em prova técnica. Como é que alguém mede isso?
Só entendi anos depois, revendo a cena com mais distância. Eu entrei naquela sala seguro demais. Sem pedir nada, sem admitir nenhuma lacuna, sem parecer que precisava daquilo.
Achei que segurança era a virtude. Descobri que, pra quem estava do outro lado da mesa, parecia indiferença. Parecia que eu não queria.
A outra candidata perguntou como podia se preparar melhor para o cargo, caso não passasse dessa vez. Eu não perguntei nada. Eu já sabia que ia passar.
Essa é a parte que ninguém me disse antes: querer alguma coisa e parecer que quer são duas competências diferentes. Você pode ter as duas, pode ter só uma, pode até ter as duas invertidas — quero muito e escondo, ou não quero quase nada e finjo que sim.
Tim Maia dizia que nunca errava — às vezes só acertava errando. Frase de quem tinha intimidade com o próprio excesso e não fingia o contrário.
Eu, naquela sala da Caixa, fiz o oposto: fingi que não tinha excesso nenhum, que estava tudo sob controle, que eu não precisava de nada daquilo.
Um erro elegante, daqueles que a gente não corrige sozinho.
O mercado, o cliente, o recrutador, a mentoria em que você se inscreveu — ninguém vê o seu desejo. Vê o seu comportamento. E comportamento sem desconforto visível é, para quem observa de fora, indistinguível de desinteresse.
251 pessoas se inscreveram no programa que lancei mês passado — o Retorno Ágil.
Eu esperava 47.
Fiquei feliz um dia inteiro — até abrir a lista de presença e ver que menos da metade apareceu nos encontros que elas mesmas pediram para existir.
Não julgo. Eu já fui os dois lados dessa história: o que quis e não mostrou, e o que mostrou sem realmente querer.
É como o Chapolin dizendo: “Eu vou!” — quando nitidamente tem medo de encarar o monstro. E o monstro nem é lá essas coisas.
A pergunta não é “você quer isso”. É: se alguém estivesse te observando essa semana, sem ouvir uma palavra sua, saberia dizer o que você quer?
Se a resposta te incomoda, boa notícia — comportamento se corrige mais rápido que caráter.
Publicado originalmente na newsletter Notas do Executivo de Segunda, no LinkedIn, em 3 de agosto de 2026.
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