Por que você quer tanto escalar o Everest?

Uma reflexão sobre a insatisfação como uma premissa para a excelência.

Por que você quer tanto escalar o Monte Everest?

Esta pergunta foi feita em 1923 por um Jornalista inglês a Sir George Mallory, que havia tentado a escalada em 1921 e em 1922, sem atingir o cume da montanha. Na época daquela entrevista ele angariava fundos para tentar uma nova escalada em 1924.

Mallory e sua equipe alcançaram 8.170 metros acima do nível do mar na expedição de 1921. Chegaram bem perto, portanto, dos 8.848 metros, onde se situa o topo do Everest.

Até hoje não há certeza se Mallory chegou ao topo do Everest em 1924. A expedição da qual fazia parte chegou a 8.570 metros, mas Mallory, acompanhado de Andrew Irvine, prosseguiu na tentativa de alcançar o cume. Eles nunca retornaram.

O corpo do alpinista foi encontrado em 1999 a cerca de 8.000 metros, indicando que morreu durante a descida, mas nada garantia que de fato ele havia alcançado o objetivo de chegar ao topo.

Somente em 1953 o topo do Everest foi alcançado. O britânico Edmund Hillary e o sherpa Tenzing Norgay chegaram por uma rota alternativa, mas utilizaram-se do aprendizado das três expedições de George Mallory.

Mas o foco aqui não é se Mallory atingiu ou não o topo e sim a resposta dele ao jornalista.

Costumo dizer a quem trabalha comigo, e suponho que alguns colegas de mais tempo já devam estar cansados de ouvir, que todos temos o direito de ir embora para casa felizes com o trabalho que fizemos naquele dia. E temos este direito todos os dias.

Parto do princípio de que ninguém sai de sua casa pela manhã com o objetivo de fazer um trabalho ruim. Me questiono até se alguém sai de casa para fazer um trabalho mais ou menos… Em geral, a grande maioria das pessoas que conheci ao longo de minha carreira e da minha vida vão ao trabalho com o objetivo de fazer o seu melhor.

Assim, depois de um dia intenso, seja lá qual for a atividade exercida, todos nós temos o direito de voltar felizes e satisfeitos para o seio de nossa família, praticar nosso esporte favorito, curtir uma atividade cultural ou o que quer que seja que gostamos de fazer, posto que precisamos ter vida fora do trabalho. Para aqueles que não a têm… Fica a dica!

A questão, portanto, não tem muito a ver com a forma como vamos embora do trabalho. Tem a ver com como chegamos.

Aprendi e acredito que há algo de limitador no ato de chegar para trabalhar já satisfeito com o trabalho em si. Você pode achar que nada há de errado em olhar para o último mês ou para a última semana e dizer internamente algo como “tenho tido bons dias de trabalho, logo, hoje também será um bom dia de trabalho” ou pior ainda, nem sequer pensar nisso e iniciar seu dia de trabalho como um robô, mas acho necessário compartilhar com vocês que os melhores desempenhos e os principais reconhecimentos que tenho visto vêm de pessoas que carregam em si um quê de insatisfação.

Repare que não estou falando de insatisfação com as pessoas à sua volta. Como gestor de empresa pública, onde nem sempre conseguimos escolher com quem vamos trabalhar, ouso dizer que o que nutro pelas pessoas com quem trabalho é um imenso senso de gratidão. Desta forma, não se trata de chegar para trabalhar insatisfeito com o desempenho de sua equipe, até porque, se tal desempenho estiver aquém do esperado, existem diversos instrumentos e ferramentas de gestão dos quais você deve lançar mão quando e se necessário.

O que falo aqui é de chegar para trabalhar insatisfeito com sua própria forma de trabalhar. Com sua forma de gerir, de coordenar, de operar.

É ter como premissa que todo dia você pode fazer seu trabalho com mais qualidade, com mais agilidade, com mais eficiência, com menor custo ou com qualquer outra melhoria que você identificar.

É saber que ninguém conhece seu trabalho melhor do que você a ponto de identificar estas possibilidades de melhoria, sem se esquecer que se alguém conseguir identificar melhorias que você não implementou, isto pode pôr em risco a própria existência da sua atividade.

Ocorre que somos naturalmente inclinados a uma busca pelo conforto e pela estabilidade. Nossos mais antigos ancestrais, na luta pela sobrevivência tal e qual nossos pais na nossa educação nos orientaram assim: Fique em um lugar seguro! E quando tal segurança é abalada acontece a frustração e a insatisfação passa a ser um resultado e não uma premissa.

Sei que o que estou propondo é algo anti-intuitivo, já que em geral encaramos a insatisfação como resultado de uma frustração e não como uma premissa que nos levará a atingir nossos objetivos com excelência. E o fato de ser anti-intuitivo já demonstra que nem todos conseguirão praticar esta máxima.

E voltando à pergunta do jornalista a George Mallory, que ao ouvir aquele “Por que você quer tanto escalar o Monte Everest?” não hesitou e respondeu:

– É porque ele está lá!

A maioria de nós provavelmente pensaria como o repórter… “Você vai sair de casa, para passar por todo o tipo de privação, sendo que já tentou duas vezes e não conseguiu, correndo o risco até de morrer… Fique quieto, moço! Pra que isso?”

A verdade é que pensar como Mallory dá trabalho, mas, mesmo não sendo para todos, também não é algo para poucos….

O que estou propondo é um exercício. Deixar o conforto do previsto e buscar a excelência por meio da insatisfação. Talvez seja até uma boa resolução de ano novo!

Em tempo, recentemente um grupo de colegas esteve em uma missão ao Vale do Silício e aprendi deles que a filosofia de lá é:

1 – Rebeldia – Não se contentar com o Status Quo

2 – Conhecimento – Ter todo o arcabouço tecnológico e acadêmico para mudar o status quo

3 – Capital – Dinheiro, ou mesmo patrocínio para a ideia

Já que é tão difícil encontrar o capital, e dá bastante trabalho adquirir conhecimento, para compensar, a rebeldia é apenas uma atitude a adotar. Depende só de você.

Penso que aqueles que, mesmo a custo de certo esforço, conseguirem ver valor na resposta de Mallory estarão preparados para enxergar a insatisfação como premissa e não como resultado.

Esses são os que mudam o mundo…


Publicado originalmente na newsletter Notas do Executivo de Segunda, no LinkedIn, em 4 de janeiro de 2019.

Se você se reconheceu neste texto, existe um caminho mais rápido e seguro até onde você quer chegar. Faça o Plano de Voo gratuito e veja qual é o seu caminho →

Notas do Executivo de Segunda
Um texto como este, toda segunda, no seu e-mail.
Gestão, carreira e o que faz uma empresa dar lucro, contado por quem viveu. Você cancela quando quiser.
Continue lendo
CarreiraQuem mais ganha dinheiro num garimpoLer o texto →CarreiraO que você sabe não conta tanto assim: a história dos lenhadoresLer o texto →Gestão e LucroPare de desenvolver seus pontos fracosLer o texto →